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Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.

  • Foto do escritor: Dialogo Singular
    Dialogo Singular
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Você já parou para perguntar a si mesmo o que te faz levantar da cama de manhã? Não a rotina, não o alarme, não a obrigação, mas o que realmente te move por dentro, aquela força silenciosa que antecede qualquer ação e que, nos dias mais difíceis, ainda te sustenta?


Friedrich Nietzsche, o filósofo alemão do século XIX, deixou uma frase que atravessou o tempo e chegou até nós com uma força surpreendente: "Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como." Não foi por acaso que Viktor Frankl, o psiquiatra austríaco e criador da logoterapia, se apropriou dessas palavras como um lema, chegando a afirmar que via nelas "um lema válido para qualquer psicoterapia." Porque, quando entendemos o que está por trás dessa frase, percebemos que ela não é só uma bela citação filosófica. Ela é uma bússola.

O "porquê" de que Nietzsche fala não é uma explicação racional para a vida. Ele é algo mais profundo, uma razão que habita não apenas na mente, mas no coração e no espírito de cada pessoa. Na logoterapia, chamamos isso de sentido, e Frankl dedicou toda a sua obra, e boa parte da sua própria vida, a demonstrar que esse sentido é a principal força motivadora do ser humano.

A história de Frankl é, ela mesma, uma prova viva dessa frase. Deportado para campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, ele perdeu quase tudo, família, posses, liberdade, dignidade física. E, no entanto, sobreviveu. Não apenas sobreviveu, mas sobreviveu com a capacidade intacta de enxergar sentido. Ele observou algo crucial nesses campos: os prisioneiros que desistiam de viver não eram necessariamente os mais fracos fisicamente, eram os que haviam perdido o seu "porquê". Quando o sentido se apagava, a chama interior também se apagava. E os que resistiam, de alguma forma, tinham diante de si uma razão, às vezes uma pessoa esperando por eles, às vezes uma obra inacabada, às vezes apenas a convicção de que precisavam testemunhar e contar ao mundo o que estava acontecendo.

Isso não significa que ter sentido torna a vida fácil. Bem pelo contrário. A proposta da logoterapia não é simplesmente eliminar o sofrimento ou anestesiá-lo, mas encontrar um motivo que o faça suportável, ou até transformador. Frankl chamava de "valores atitudinais" a capacidade de escolher a própria atitude diante de circunstâncias que não podemos mudar. Quando o "como" é insuportável, quando a dor é real, quando a perda é genuína, o "porquê" é o que nos permite manter a dignidade e continuar em movimento.

Vejo isso acontecer em muitas pessoas que chegam ao consultório exatamente nesse ponto: o sofrimento está dado, a crise está instalada, e a pergunta que lateja por baixo de tudo é: "Por que continuar?" Não raro, por trás de um episódio de ansiedade severa ou de uma depressão profunda, existe um vazio existencial, aquela sensação de que a vida perdeu o rumo, que os dias se tornaram mecânicos, que fazer e conseguir não bastam mais. Frankl descrevia esse vazio existencial como a neurose da nossa época, e hoje, décadas depois, ele parece mais atual do que nunca. Vivemos em um tempo de muitas respostas para o "como", aplicativos para produtividade, técnicas para felicidade, fórmulas para o sucesso, mas com cada vez menos clareza sobre o "porquê".

A lição que está dentro dessa frase de Nietzsche, e que a logoterapia ajuda a desdobrar na prática, é que o sentido não é algo que se inventa, nem que se herda, mas algo que se descobre. Cada pessoa carrega dentro de si uma resposta única, intransferível, que só ela pode encontrar, e que se revela na relação com o trabalho, com as pessoas que ama e com as próprias dores. Frankl identificou três caminhos para esse encontro: criar algo de valor, vivenciar algo de belo ou verdadeiro, como uma experiência de amor ou de arte, e escolher uma atitude diante daquilo que não pode ser mudado. Não é uma fórmula. É um convite à escuta de si mesmo.

Certa vez, atendi um homem que havia perdido o emprego de muitos anos e estava mergulhado numa crise que ia muito além do financeiro. "Eu não sei mais quem eu sou", ele me disse. E ali estava o verdadeiro sofrimento, não a falta de renda, mas a falta de sentido. Quando começamos a explorar o que realmente importava para ele, o que queria deixar para seus filhos, que tipo de pessoa queria ser fora da função que exercia, uma porta foi se abrindo. Ele não encontrou respostas prontas, mas começou a fazer as perguntas certas. E isso, muitas vezes, já é o início da travessia.


O "porquê" não precisa ser grandioso. Ele pode ser simples, concreto e íntimo. Pode ser uma criança, um projeto, um valor que você não quer abrir mão, a memória de alguém que acreditou em você. O que importa é que ele seja genuíno, que fale de dentro para fora e não de fora para dentro. Porque quando o sentido é externo e emprestado, qualquer turbulência o apaga. Mas quando ele brota de dentro, de uma escolha consciente sobre quem você quer ser e o que quer fazer com a vida que tem, ele resiste. Não invulnerável, mas resistente.


Nietzsche e Frankl, cada um à sua maneira, nos lembram que o ser humano não é apenas um ser que sofre, mas um ser que pode dar sentido ao sofrimento. E é aí que mora uma das maiores liberdades que existem: não a liberdade de escolher as circunstâncias, mas a liberdade de escolher como responder a elas.

​Você já sabe o seu "porquê"? Se ainda não, talvez este seja o momento de começar a perguntar. E a boa notícia é que essa busca, em si mesma, já é uma forma de viver com mais profundidade.


Lieber Faiad, psicólogo com formação em Logoterapia (Terapia do Sentido da Vida), pós-graduado em Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade pela CBI of Miami.

 
 
 

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