Quando procurar ajuda parece mais difícil do que admitir que precisamos dela
- Dialogo Singular
- há 1 dia
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Existe uma distância muito particular entre reconhecer que algo não vai bem e de fato pegar o telefone para marcar uma consulta. Você talvez conheça essa distância de perto. Já ficou semanas, ou talvez meses, sabendo que precisava de ajuda, mas algo dentro de você resistia, travava, adiava? Essa experiência é mais comum do que parece, e os números confirmam isso com uma clareza que chega a ser desconfortável.
Uma pesquisa do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, publicada em 2023, revelou que apenas 5% dos brasileiros fazem psicoterapia. O Brasil é o segundo país das Américas com maior prevalência de depressão e, ainda assim, aproximadamente 86% das pessoas que enfrentam algum desafio de saúde mental nunca chegam a buscar ajuda especializada. Cerca de 19% consultaram um psicólogo ou psiquiatra ao longo do último ano, mas a grande maioria não passou de cinco encontros. Esses dados não descrevem um país que não sofre. Descrevem um país que ainda não aprendeu a pedir socorro.
E o que impede? A resposta mais óbvia seria o acesso, o custo da sessão, a falta de profissionais em certas regiões, as longas filas no sistema público. Essas barreiras são reais e precisam ser reconhecidas. Mas existe algo que vai além da estrutura, algo que mora dentro de cada um de nós e que opera de forma silenciosa: o estigma, popularmente conhecido como preconceito. Pesquisas mostram que o medo do julgamento social tem impacto maior na decisão de não buscar ajuda do que as barreiras estruturais em si. Ainda persiste, para uma parcela significativa da população, a crença de que "terapia é coisa para pessoas fracas ou loucas", e entre os homens esse peso é ainda mais carregado, com 65% deles relatando não procurar suporte para questões de saúde mental.
Admitir que precisamos de ajuda é, em muitos sentidos, o passo mais honesto que uma pessoa pode dar. Mas o que paralisa não costuma ser essa admissão, que muitas vezes já aconteceu em silêncio, num momento de solidão, de cansaço, de lágrimas que chegam sem explicação. O que paralisa é o passo seguinte, o de transformar esse reconhecimento interior em uma ação concreta. Porque buscar ajuda exige sair do mundo interno, onde a dor ainda é só nossa, e trazê-la para o espaço compartilhado do encontro com outro. Isso tem peso. Tem uma coragem própria.
Penso em uma paciente que chegou ao consultório depois de quase um ano adiando. Ela sabia desde o primeiro sinal que precisava de terapia, mas toda vez que abria o computador para pesquisar um psicólogo, fechava rapidamente. "Parecia que marcar a consulta tornava tudo mais real", ela me disse. E nisso ela revelou algo do sentimento: existe uma lógica interna, às vezes inconsciente, que diz que, enquanto a gente não for, ainda é possível acreditar que vai resolver sozinha. Ir ao psicólogo, nessa perspectiva, soa como uma confirmação de que a situação é grave, como se colocar a dor diante de outro ser humano a tornasse mais verdadeira do que já é.
Na logoterapia, entendemos que o ser humano é essencialmente um ser que busca sentido, e uma das maiores fontes de sofrimento é a sensação de que os dias se tornaram vazios, mecânicos, sem direção. Esse vazio existencial, que Viktor Frankl descrevia como a neurose da nossa época, frequentemente está por baixo do adiamento. Quando o sentido se apaga, a energia para agir também diminui, inclusive a energia para cuidar de si mesmo. Não é descaso, é esgotamento de dentro para fora.
E 2024 trouxe um dado que ilustra bem esse cenário: o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais em dez anos. Não estamos diante de uma fragilidade individual de algumas pessoas, estamos diante de um fenômeno coletivo, cultural, que pede uma resposta coletiva e, ao mesmo tempo, uma decisão pessoal. Porque mesmo em um contexto estruturalmente deficiente, a escolha de buscar ajuda começa em cada um.
Entre os que mais resistem, aparecem padrões interessantes. Os jovens entre os que menos conhecem serviços de saúde mental disponíveis, com metade deles declarando não saber onde buscar apoio. Os idosos, com apenas 2% relatando fazer psicoterapia, a menor taxa entre todas as faixas etárias. E os homens, que cresceram ouvindo que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza, e que carregam esse peso de forma silenciosa até que o silêncio se torne insuportável.
Há também o medo do processo em si. Pesquisas apontam que entre os receios mais citados estão não conseguir se abrir com o profissional, reviver traumas dolorosos e a desconfiança de que a terapia simplesmente não funcione. Esses medos são legítimos. Eles merecem ser acolhidos, não descartados. Mas também merecem ser interrogados, porque a maioria das pessoas que atravessa esse primeiro passo relata, com o tempo, que o maior obstáculo estava mesmo do lado de fora da porta do consultório, não dentro.
Existe algo muito revelador no dado de que 43% dos brasileiros que estão em terapia começaram há menos de um ano. Isso sugere que a decisão de ir, quando finalmente tomada, é recente para muitos. Que há uma geração que está aprendendo agora a pedir ajuda. E isso é, ao mesmo tempo, esperançoso e urgente. Porque cada ano adiado é um ano vivendo com menos do que se poderia viver, com menos clareza, menos presença, menos sentido.
Cuidar de si não é luxo. É o primeiro passo para cuidar de tudo o que importa para você. E se você está naquela distância que descrevi no início, sabendo que precisa mas ainda adiando, talvez valha fazer uma pergunta simples: o que você tem a perder ao ir? E, mais importante, o que tem perdido ao não ir?
A porta do consultório não exige que você chegue pronto. Exige apenas que você chegue.
Lieber Faiad, psicólogo com formação em Logoterapia (Terapia do Sentido da Vida), pós-graduado em Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade pela CBI of Miami.




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