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SÉRIE: TDAH - O QUE EU FAÇO COM ISSO? Dentro Desse Cérebro

  • Foto do escritor: Dialogo Singular
    Dialogo Singular
  • 23 de mar.
  • 3 min de leitura

Artigo 2 de 3 — O Cérebro Neurodivergente


Se você leu o primeiro artigo desta série, já sabe que o laudo de TDAH não é uma sentença. Mas talvez você ainda esteja se perguntando: tudo bem, mas o que exatamente está acontecendo dentro do meu filho? Por que ele esquece uma coisa que acabei de falar? Por que ele consegue ficar três horas no videogame e não consegue ficar três minutos estudando? Essa contradição incomoda, e ela merece uma resposta honesta.


O cérebro do TDAH não é um cérebro com menos capacidade. É um cérebro com uma dinâmica de atenção diferente. Há uma Neurodivergência. Assim, a mesma criança que parece incapaz de se concentrar pode entrar em um estado que chamamos de hiperfoco, uma imersão tão intensa em algo que a fascina de verdade, que ela perde a noção do tempo, do ambiente, das pessoas ao redor. Esse estado não é uma contradição do diagnóstico. Ele é parte dele. E ele revela algo muito importante: esse cérebro não tem dificuldade com atenção em si, ele tem dificuldade em direcionar a atenção para o que a situação exige, especialmente quando o estímulo não desperta interesse genuíno.


Pense como se fosse uma bússola sensível demais. Ela não para de funcionar, ela responde a tudo, ao menor som na janela, ao pensamento que surgiu do nada, à lembrança de algo que aconteceu ontem. Quando o ambiente oferece algo que magnetiza de verdade, a bússola se estabiliza e aponta com precisão. Quando não, ela gira, busca, dispersa. E como sabemos, o mundo escolar e doméstico raramente foi desenhado para esse tipo de navegação.



Há também uma questão com o tempo. Quem tem TDAH tende a viver em dois momentos: agora e depois. O futuro, seja a prova da semana que vem ou o compromisso de amanhã, parece abstrato, distante, pouco urgente. Não porque a criança não ligue para as consequências, mas porque o córtex pré-frontal, essa parte do cérebro responsável por tornar o futuro real e presente na tomada de decisão, ainda está amadurecendo (o que acontece até por volta dos 25 anos). É por isso que ela sai de casa sem o material, mesmo tendo lembrado dele cinco minutos antes. Entre a lembrança e a ação, algo se soltou.


Entender isso muda tudo na forma como os pais reagem. Porque a reação mais comum, a cobrança, a punição, o "você está fazendo isso de propósito", parte de uma premissa falsa: a de que a criança pode, mas não quer. Quando os pais percebem que a criança quer, mas ainda não consegue de forma consistente, o tom da conversa muda. E esse tom diferente é, por si só, terapêutico.


Viktor Frankl tinha um conceito que eu aplico com frequência: o Autodistanciamento. É a capacidade de se observar sem se perder na identificação total com o problema. Uma criança que cresce ouvindo que é desastrada, irresponsável ou difícil, começa a acreditar nisso. Ela para de perguntar o que eu posso fazer diferente e começa a concluir eu sou assim mesmo. Quando os pais aprendem a separar o comportamento da pessoa, quando conseguem dizer com clareza isso foi difícil, mas você não é difícil, eles estão oferecendo ao filho uma das ferramentas existenciais mais poderosas: a possibilidade de se ver além do que aconteceu.



O hiperfoco, quando bem compreendido, deixa de ser um problema e passa a ser uma pista. Ele aponta para onde está o prazer genuíno dessa criança, para o que desperta nela daquilo que vai além da obrigação. E quando os pais conseguem enxergar esse ponto de luz, em vez de apenas o caos ao redor, eles começam a colaborar com o que há de mais forte nesse filho, e não apenas a combater o que há de mais difícil.


O TDAH não desaparece com o entendimento. Mas o sofrimento em torno dele, sim, pode diminuir muito. E a diminuição começa, quase sempre, com um pai ou uma mãe que decidiu entender antes de reagir.


No próximo e último artigo desta série, vamos falar sobre o tratamento, o papel da terapia, da medicação e, principalmente, o que os pais podem fazer em casa para transformar o ambiente em aliado.


Lieber Faiad, psicólogo com formação em Logoterapia (Terapia do Sentido da Vida), pós-graduado em Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade pela CBI of Miami.

 
 
 

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"Fazer terapia é um ato de amor."

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