top of page
Buscar

Cuidando de si em um mundo com pressa: o vazio existencial na era dos laços descartáveis

Foto do escritor: Dialogo Singular
Dialogo Singular
1 de set.
5 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Você acordou esta manhã e, antes mesmo de sair da cama, já estava pensando em tudo o que precisa fazer? Talvez tenha aberto o telefone e passado os próximos dez minutos deslizando pela vida de outras pessoas, vendo fragmentos de histórias que desaparecem em segundos, conexões que não conectam nada além de notificações. Há uma sensação estranha que paira sobre nós atualmente, uma que os antigos não poderiam ter sentido da mesma forma: estamos incrivelmente ocupados, mas profundamente vazios.


A pressa se tornou o idioma da nossa época. Vivemos como se a vida fosse uma corrida contra o tempo, como se em algum lugar existisse uma linha de chegada que justificasse essa velocidade constante. Respondemos mensagens instantaneamente, consumimos conteúdo em doses cada vez menores, relacionamentos que antes duravam décadas agora duram temporadas. Temos aplicativos para tudo, otimizações para cada minuto do dia, e ainda assim, paradoxalmente, sentimos que estamos perdendo algo essencial. O que exatamente estamos deixando para trás nessa corrida?


A logoterapia, fundada por Viktor Frankl, oferece uma resposta que ecoa com força particular neste momento: o vazio que sentimos não é um vazio de tarefas por fazer ou de experiências por colecionar. É um vazio de sentido. Frankl observou que a falta de um propósito claro, de uma razão genuína para estar aqui e agora, é a fonte de um sofrimento muito específico que ele chamou de vazio existencial. Não é uma depressão clássica, não é necessariamente uma ansiedade diagnosticável. É algo mais difuso, mais sutil, mas igualmente devastador: a sensação de que os dias se sucedem em um padrão vazio, que não há um "para quê" orientando a vida.


E o que alimenta esse vazio, particularmente hoje, é a cultura dos laços descartáveis. Temos mais conexões que nunca, mas quantas delas são realmente profundas? Quantas pessoas você conhece que você não consideraria dispensável, que você sentiria verdadeiramente falta se desaparecessem? Essa não é uma pergunta moral, é uma pergunta existencial. Porque o ser humano foi feito para vínculos que significam algo, para pessoas que importam, para lugares onde é necessário. Quando aqueles que nos cercam se tornam intercambiáveis, quando relacionamentos podem ser descartados com um clique, algo dentro de nós se quebra silenciosamente.


Recebi uma paciente há alguns meses que resumiu isso perfeitamente. Ela tinha centenas de "amigos" em redes sociais, saía regularmente com colegas de trabalho, tinha uma vida social que, vista de fora, parecia plena. E, no entanto, descreveu estar em um isolamento profundo. "Ninguém me conhece realmente", ela me disse. "E pior que isso, ninguém precisa de mim, de verdade." Aquela conversa tocou em algo crucial: a necessidade humana não é apenas de estar junto a alguém, mas de ser necessário, de fazer uma diferença que importa na vida de outro ser humano. A pressa e a descartabilidade eliminaram justamente isso. Você pode abandonar uma amizade por uma desavença trivial, trocar de parceiro porque apareceu uma opção melhor, mudar de emprego porque o algoritmo recomendou. Tudo isso é "rápido", mas nada disso é real.


Frankl observou nos campos de concentração algo que pode parecer contraditório: mesmo diante do sofrimento mais extremo, as pessoas que encontravam um motivo, uma razão para continuar, conseguiam sobreviver com mais dignidade. E as que desistiam, frequentemente, não eram as mais fracas biologicamente, mas as que haviam perdido o sentido. Um homem que tinha um filho esperando por ele fora daquele inferno, uma mulher que precisava terminar um livro que havia começado, alguém que simplesmente precisava testemunhar e contar ao mundo o que havia acontecido. Esses "porquês" sustentavam vidas que, por lógica material, deveriam ter sucumbido.


Mas e nós, que não estamos em campos de concentração, que temos acesso a comida, segurança, entretenimento infinito? Nós temos tudo exceto justamente isso: um porquê que nos sustente. E a pressa nos impede de procurar. Estamos tão ocupados tentando fazer mais, ser mais, ter mais, que não paramos para perguntar: estou fazendo isso para quê? Essa vida que estou vivendo, com essa velocidade, com esses relacionamentos superficiais, está me levando aonde? E, talvez mais importante: o que estou perdendo no caminho?


Cuidar de si em um mundo com pressa não significa apenas dormir bem ou fazer exercício, embora essas coisas importem. Significa algo mais radical: significa desacelerar o suficiente para descobrir o que realmente importa para você. Significa interrogar cada compromisso, cada relacionamento, cada hábito e perguntar se aquilo alimenta ou esvazia seu sentido de existência. Porque você não pode passar a vida inteira em piloto automático e esperar se sentir bem. O corpo pode estar saudável enquanto a alma definha.


Na logoterapia, falamos de três caminhos para encontrar sentido. O primeiro é criar algo de valor, deixar uma marca no mundo através do trabalho, de um projeto, de algo que você constrói com as próprias mãos. O segundo é vivenciar algo significativo, um momento de beleza, uma experiência de amor genuíno, um encontro que te transforma. O terceiro, e talvez o mais importante para nosso tempo, é escolher a atitude correta diante do que não pode ser mudado. É a capacidade de dizer sim à vida mesmo quando ela duele, de extrair sentido até do sofrimento.


Cuidar de si começa quando você admite que o vazio que sente merece ser levado a sério. Não é fraqueza, não é ingratidão diante de tudo que você tem. É simplesmente o sinal de que algo essencial está faltando. Pode ser que você precise revisar com quem está gastando sua energia. Pode ser que precise deixar ir relacionamentos que se tornaram vazios, mesmo que pareça egoísta. Pode ser que precise parar de responder mensagens em quinze segundos e passar uma tarde inteira conversando com alguém que realmente importa. Pode ser que precise descobrir um trabalho, um projeto ou uma causa que faça seus dias terem peso.


Uma menina me perguntou uma vez se era errado deixar de ser amiga de alguém que não a tornava mais feliz. Minha resposta foi simples: não, desde que você deixe espaço para trazer para perto alguém ou algo que realmente ressignifique a sua vida. A descartabilidade dos laços modernos não precisa nos tornar descartáveis para nós mesmos. Você pode ser seletivo com suas conexões sem se isolar. Pode buscar profundidade sem rejeitar tudo que é leve. Pode desacelerar sem parar completamente.


O vazio existencial não é uma doença que se trata com remédio. É um chamado. A vida está lhe perguntando: para quê você está aqui? E você merece ter uma resposta que venha de dentro, não que lhe seja vendida por um algoritmo ou imposta pela pressa de todos ao seu redor. Frankl dizia que o homem não é um produto de seu tempo, ele é alguém que pode questionar seu tempo. Você pode estar rodeado de velocidade e ainda escolher a profundidade. Pode estar cercado por laços descartáveis e ainda cultivar conexões que significam algo.


Cuidar de si em um mundo com pressa é um ato revolucionário. É parar para perguntar se está vivendo a vida que quer ou apenas a vida que consegue manter em movimento. É reconhecer que a pressa rouba não apenas o seu tempo, mas o seu acesso ao sentido. E é tomar a decisão, dia após dia, de que seus relacionamentos, seu trabalho, suas escolhas vão estar alinhados com o que você realmente é, não com o que o mundo espera que você seja.


A jornada de autodescoberta não é algo que você consegue enquanto corre. Ela exige pausas, contemplação, diálogos genuínos, momentos de silêncio onde você possa ouvir a si mesmo. Mas aqui está a boa notícia: você pode começar agora, neste exato instante. Não precisa esperar que tudo mude. Precisa apenas de um primeiro passo consciente: uma conversa mais profunda com alguém que importa, um compromisso que você cancela porque não faz sentido, um espaço vazio na agenda que você deixa em branco, sem culpa. Esses pequenos atos de desaceleração são sementes. E de sementes crescem vidas que importam de verdade.


Lieber Faiad, psicólogo com formação em Logoterapia (Terapia do Sentido da Vida), pós-graduado em Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade pela CBI of Miami.

 
 
 

Comentários


emocoes-de-pessoas-estilo-de-vida-e-conceito-de-moda-tocada-linda-mulher-coreana-parecendo

"Fazer terapia é um ato de amor."

Diálogo Singular

Atendimento Online e Presencial

Atendimento presencial no endereço:

R. São Benedito, 415 - Lixeira, Cuiabá - MT, 78008-405, Brasil

(65) 98423-0246

Apenas WhatsApp

Para agendamento presencial no telefone (65) 3624-3060

  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube

©2023 por Diálogo Singular

bottom of page